O problema não está no outro

Existe uma dificuldade enorme em perceber a diversidade humana e sua subjetividade”, é com essa frase do Professor Leandro Karnal que começo esse texto, onde quero trazer uma breve reflexão sobre a falta de entendimento e respeito com aquilo que só diz respeito ao outro. E nada melhor do que utilizar as sábias palavras de um Historiador, que tive o privilégio de conhecer pessoalmente e ouvir numa palestra, para reforçar meus argumentos.

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Os Jogos Olímpicos Rio 2016 movimentam a mídia do mundo inteiro com notícias. Todos os dias vemos, lemos e ouvimos curiosidades, estatísticas, previsões, resultados e informações sobre tudo que acontece nas competições e até mesmo dentro da Vila Olímpica, onde os atletas estão hospedados. Jornalistas do mundo inteiro estão sedentos por conteúdos diferenciados para rechear suas matérias, tanto para atender suas expectativas pessoais/profissionais, do próprio veículo de comunicação para o os quais trabalham, quanto para um público cada vez mais interessado em novos assuntos. Entretanto, nesse contexto em que temos o jornalista, o conteúdo a ser abordado, o canal que veiculará a notícia e o público que receberá a informação, ao longo de todas essas etapas deverá sempre existir uma questão muito importante: o bom senso. Ou seja, uma avaliação mínima sobre a pertinência do que será dito, as consequências que acarretará, o objetivo daquilo estar sendo dito e, mais ainda, de forma afetará as pessoas.

Um artigo polêmico escrito pelo jornalista britânico Nico Hines, editor do site “The Daily Beast”, foi uma das coisas mais desastrosas que se viu ultimamente em uma cobertura de Olimpíadas e incomodou até mesmo atletas que não estão envolvidos na notícia e também os internautas. Em resumo, ele planejou uma forma de “tirar do armário” alguns esportistas que estão na cidade para os Jogos Olímpicos, para isso criou um perfil falso em um aplicativo de paquera para o público LGBT, mapeou atletas via GPS e chegou a marcar encontros com alguns deles (mas não compareceu em nenhum deles de verdade). O jornalista, que é heterossexual, a partir disso, criou um texto chamado “I Got Three Grindr Dates in a Hour in the Olympic Village” (“Consegui três encontros no Grindr em uma hora na Vila Olímpica”), narrando em detalhes a facilidade com que marcou esses encontros usando aplicativos como Grindr, Hornet, Tinder, entre outros. Apesar de abordar também atletas heterossexuais, o texto tem o foco principal sobre os gays.

A publicação enfureceu muitos outros atletas, mesmo não envolvidos ou citados no texto, assim como, os amigos dos competidores e o público em geral. Afinal de contas, além de expor as pessoas de forma inescrupulosa, não mediu em nenhum momento as consequências. Muitos dos atletas comentados ainda são muito jovens e não haviam ainda achado uma forma de compartilhar com as suas famílias a questão de sua sexualidade, outros, todavia, residem em países extremamente radicais em que o fato de ser gay é considerado um crime.  E nessa mistura toda tem o reflexo na imagem do atleta com as marcas dos seus patrocinadores e também com o público, que poderá causar transtornos na sua carreira, afinal de contas o preconceito ainda é enorme (talvez ainda mais acentuado no meio esportivo).

O nadador Amini Fonua, que está no Rio para participar dos Jogos e nasceu em Tonga, país onde os homossexuais são violentamente criminalizados, usou o Twitter para criticar de forma veemente o que foi feito pelo jornalista: “Algumas dessas pessoas que você tirou do armário são meus amigos. Com família e vidas que serão afetadas para sempre”. “Imagine um espaço onde você pode ser você mesmo, se sentir seguro, sendo arruinado por alguém que acha que tudo é brincadeira?”, escreveu o nadador.

Depois de muita polêmica, o artigo foi apagado do site e substituído por um pedido de desculpas do Daily Beast que publicou: “Nossa esperança é que, ao remover o artigo que está em conflito com nossos valores, bem como com aos quais aspiramos como jornalistas, demonstre quão seriamente levamos nosso erro”.

Então a partir disso tudo que li na imprensa e relatei aqui, eu me pergunto: onde está a ética? Onde foi parar o bom senso? O que está acontecendo com os seres humanos?

Espero que as pessoas entendam a gravidade dessa publicação, das atitudes do jornalista e do veículo que autorizou e publicou seu texto (caso tenham visto antes). Nenhuma pessoa tem o direito de invadir a intimidade dos outros, enganar através de perfis fakes para arrancar informações e depois expor isso ao mundo. Ninguém tem o direito de interferir dessa forma na vida do outro sem a mínima consciência das consequências que isso trará. Falar ou não sobre a sexualidade é uma escolha única e exclusiva da pessoa que está vivenciando aquilo. E o direito de não ser exposto serve para todos os aspectos da vida de cada um. O que ele pensou que ganharia com isso? Um pouco mais de exposição, quem sabe, ou muitas visualizações e audiência. Mas a que preço? Quem paga essa conta?

O que falta para muitas pessoas entenderem é que o fato de expor da vida do outro, ou aquilo que consideram um “problema” na vida alheia, não as torna melhores. Você não é melhor porque alguém é diferente de você, porque ser melhor ou pior depende do ponto de vista e da subjetividade de cada pessoa. Alguém pobre, por exemplo, pode se sentir melhor do que alguém muito rico, simplesmente porque tem a liberdade de ir e vir sem se preocupar com a segurança, ou porque não tem amizades baseadas em interesses ou talvez não precise se preocupar tanto com os negócios, já que não tem tantas famílias dependendo financeiramente dele. Assim como, uma pessoa gorda pode se sentir mais feliz que uma magra, simplesmente porque pode comer tudo que tem vontade. Enfim, a questão toda é que expor algo que a gente ache errado nos outros não nos faz melhor, ao contrário, apenas nos torna mais medíocres.

O problema não é ser gay, mas sim ser um jornalista que se faz passar por outra pessoa, apenas para expor a intimidade dos outros com o objetivo de que sua notícia tenha audiência e repercussão na mídia. Falta aqui a dimensão do humano, a ética, o respeito e o bom senso.

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