Toda nudez será castigada

NUDEZ

Na cidade de Porto Alegre, capital gaúcha, aconteceu um fato recorrente nas últimas semanas: três pessoas ficaram nuas na rua. Primeiro, uma mulher tirou a roupa e saiu correndo pelo no Parque Moinhos de Vento, que fica dentro de um bairro considerado nobre na cidade. Depois, surge na mídia as imagens de uma segunda mulher que saiu caminhando nua pela Avenida Carlos Gomes, em plena chuva, num horário de pico do trânsito com centenas de carros buzinando. E teve também o caso de um travesti que saiu nu pela Avenida Loureiro da Silva, próximo do centro de Porto Alegre, outro ponto de muito movimento de trânsito e pedestres. Só não sei exatamente se ele fez isso antes ou depois delas. Mas a ordem dos fatos não é mais importante do que tenho a dizer aqui.

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Independente do que motivou essas pessoas a tirarem a roupa e saírem nuas na rua, percebi o quanto gerou furor nas outras pessoas que comentavam as fotos nas redes sociais, assim como, as reações quando assistiam as imagens nas matérias de TV. Era como se tivessem vendo o Brasil ganhar um jogo, ou acompanhando o último capítulo de uma novela de sucesso. Os que estavam conversando em grupo paravam na hora e ficavam vidrados na tela da TV, para nos segundos seguintes começarem um falatório acalorado.

E isso me fez questionar: por que as pessoas temem tanto a nudez? Sim, porque acredito que a maioria dos seres humanos ainda não sabe lidar com isso. Tirar as roupas é quase como despir a alma. Sentimo-nos tão vulneráveis que é como se o outro estivesse vendo dentro da gente. As pessoas num geral sentem-se mal em tirar a roupa na frente do médico numa consulta, em meio aos outros no vestiário, num banheiro público. Tem alguns que até mesmo no provador de roupas de uma loja, ficam olhando se não tem nem um resquício de espaço na porta ou na cortina para alguém lhes ver. Acho que tudo isso se deve a pudor, a repressão da sexualidade, vergonha do próprio corpo tendo em vista os padrões estéticos do mundo atual, enfim é uma soma de vários fatores.

Todos ficam se escondendo o tempo inteiro. E o primeiro que tem coragem de expor seu corpo aos olhos do mundo é apontado. A nudez gera curiosidade, espanto, graça, constrangimento e temeridade. Nem tudo tem a ver com sexualidade ou sensualidade, tirar a roupa, pode ser simplesmente tirar a roupa. Mas a sociedade não sabe lidar ainda com isso de forma madura.

É justamente por isso que muitos grupos quando querem fazer um protesto político/social/ambiental sobre qualquer tema usam a nudez como artifício para chamar a atenção das pessoas e da imprensa. Pois sabem que suas reinvindicações terão todos os holofotes com os corpos expostos. E talvez tenha sido por isso também que essas três pessoas ousaram abandonar suas vestes e sair pelas ruas de Porto Alegre sem elas. Foi uma forma de protestarem, chamarem a atenção, soltarem as emoções de algum problema que estão vivendo, ou simplesmente se sentirem livres de novo.

                Isso tudo me fez recordar de “Toda nudez será castigada”, uma peça teatral escrita por Nelson Rodrigues, em 1965. Sua primeira encenação teve estreia no dia 21 de junho de 1965, no Teatro Serrador, do Rio de Janeiro, sob a direção do polonês Ziembinski. Também tornou-se posteriormente um filme brasileiro lançado em dezembro de 1972, dirigido por Arnaldo Jabor, e produzido pela Produções Cinematográficas Roberto Farias. O roteiro fala sobre Herculano, um homem puritano, viúvo, que jura a seu filho Serginho que nunca terá outra mulher. No entanto, ele se apaixona por uma prostituta, Geni, a quem conhece por intermédio de Patrício, seu irmão, interessado em que Herculano volte a sustentar seus vícios com bebida e mulheres. Quando resolve casar-se com Geni, gera uma série de conflitos em sua família, entre eles a prisão de Serginho após uma briga em um bar. O garoto é estuprado na prisão e, após solto, torna-se amante de Geni, somente com a intenção de vingar-se do pai por haver quebrado o juramento. No fim, Serginho foge com o ladrão boliviano, que o estuprara na delegacia. Em desespero, Geni comete suicídio, deixando uma fita gravada narrando toda a história para Herculano.

O fato de Geni ser uma prostituta e usar a nudez para seduzir, assim como, para ganhar a vida, não teria nenhum problema, aos meus olhos evidentemente, mas foi o que despertou a ira das pessoas na história. E consequentemente o final trágico. Afinal, como ela pode tirar a roupa dessa maneira?! É muita ousadia! E taca-lhe pedra na Geni! Bem como diz a letra de Chico Buarque na música “Geni e o Zepelim”: “Joga pedra na GeniJoga pedra na Geni! Ela é feita pra apanhar! Ela é boa de cuspir! Ela dá pra qualquer um! Maldita Geni!”.

Nelson Rodrigues estava certo quando disse que toda nudez será castigada. E por muito tempo será mesmo. Vai demorar até que o ato de tirar as roupas possa ser simplesmente isso: tirar as roupas que cobrem a pele. Por décadas ainda será algo para fazermos dentro das nossas casas, fechados no quarto ou no banheiro. Ou para as prostitutas, garotos de programa, atores de filmes pornôs, pessoas que saem em capas de revistas em troca de um alto cachê, modelos e atores mais ousados.

Como sempre a sociedade e os seus paradigmas. Tendo em vista os diversos fenômenos políticos, econômicos e culturais em que estamos vivenciando, ainda cabe perguntar: Afinal, os pudores podem ser vencidos?

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